“Ministrocracia” e decisões individuais contraditórias no Supremo Tribunal Federal
DOI :
https://doi.org/10.5102/rbpp.v11i3.7418Mots-clés :
Supremo Tribunal Federal, Decisões individuais, Guerra de liminares, Ministrocracia, Colegialidade.Résumé
O objetivo do artigo é questionar se a ministrocracia, categoria que busca explicar a atuação individual dos Ministros do Supremo Tribunal Federal como agentes que bloqueiam a deliberação da instituição, prejudica a legitimidade do ente de maior destaque responsável pela interpretação da Constituição Federal de 1988. Este trabalho investigará como a atuação do Ministro Dias Toffoli na Presidência (2018-2020) do órgão expandiu o cenário de decisões individuais contraditórias entre os seus membros e aumentou este problema. A pesquisa se baseou na metodologia de análise de fontes diretas e indiretas, com ênfase no acesso a relatórios da evolução decisória quantitativa do tribunal e às decisões prolatadas por seus membros, a partir do recorte temporal 2018-2020, contextualizados à luz da literatura. O trabalho foi dividido em três partes. Primeiro, investiga-se como as modificações normativas ocorridas nos anos 2000 estimularam a atuação individual dos Ministros. Segundo, analisa-se como esse fenômeno foi potencializado na gestão presidencial do biênio 2018-2020, gerando conflitos decisórios internos. Terceiro, explora-se alterações regimentais capazes de trazer maior coesão decisória à jurisprudência da Corte. Concluiu-se que o contexto de “guerra de liminares” ocorrido durante a presidência do Ministro Dias Toffoli amplificou a ministrocracia e que mudanças regimentais podem estimular a colegialidade no Supremo Tribunal Federal. A contribuição do artigo está em focar em um tema pouco explorado, mas de elevadas implicações práticas no exercício jurisdicional.Références
ANDRADE, Fábio Martins de. Reforma do Poder Judiciário: aspectos gerais, o sistema de controle de constitucionalidade das leis e a regulamentação da súmula vinculante. Revista de informação legislativa, v. 43, n. 171, pp. 177-197, 2006. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/92823. Acesso em: 15 fev. 2021.
ARGUELHES, Diego Werneck. A liminar de Marco Aurélio: da monocratização à insurreição? In: FALCÃO, Joaquim; ARGUELHES, Diego W; PEREIRA, Thomaz; RECONDO, Felipe (Orgs.). O Supremo e o Processo Eleitoral. Belo Horizonte: Letramento; Casa do Direito; FGV Direito Rio; Supra; Jota, 2019, pp. 110-119.
ARGUELHES, Diego Werneck; RIBEIRO, Leandro Molhano. ‘The Court, it is I’? Individual judicial powers in the Brazilian Supreme Court and their implications for constitutional theory. Global Constitutionalism, vol. 07, n. 02, pp. 236-262, july 2018. DOI: http://doi.org/10.1017/S2045381718000072. Acesso em: 8 jun. 2020.
ARGUELHES, Diego Werneck; RIBEIRO, Leandro Molhano. Ministrocracia: o Supremo Tribunal individual e o processo democrático brasileiro. Novos Estudos CEBRAP, vol. 37, n. 01, pp. 13-32, 2018. DOI: https://doi.org/10.25091/s01013300201800010003. Acesso em: 8 jun. 2020.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Constitucionalidade 54/DF. Medida Cautelar do Min. Marco Aurélio (relator). Julgamento em 19/12/2018. DJe de 31/01/2019. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/adc-54-marco-aurelio-transito-julgado.pdf. Acesso em: 2 abr. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade 6.298/DF. Medida cautelar do Min. Luiz Fux (relator). Julgamento em 22/01/2020. Disponível em: http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADI6298.pdf. Acesso em: 1º set. 2020.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade 5.942/DF. Medida Cautelar do Min. Marco Aurélio (relator). Julgamento em 19/12/2018. DJe de 31/01/2019. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/marco-aurelio-suspende-cessao-direitos.pdf. Acesso em: 2 abr. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação Direta de Inconstitucionalidade 6.298/DF. Medida cautelar do Min. Dias Toffoli (Presidente). Julgamento em 15/01/2020. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/liminar-suspende-implantacao-juiz.pdf. Acesso em: 10 jan. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Habeas Corpus 191.836/SP. Medida cautelar do Min. Marco Aurélio (relator). Julgamento em 02/10/2020. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/liminar-marco-aurelio-andre-rap.pdf. Acesso em: 15 fev. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Mandado de Segurança 36.169/DF. Medida Cautelar do Min. Marco Aurélio (relator). Julgamento em 19/12/2018. DJe de 31/01/2019. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/eleicao-mesa-diretora-senado-voto.pdf. Acesso em: 2 abr. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Medida Cautelar na Suspensão de Segurança 5.272/DF. Relator Min. Dias Toffoli. Decisão liminar tomada em 09/01/2019. DJe de 04/02/2019. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/toffoli-mantem-voto-fechado-eleicoes.pdf. Acesso em: 25 fev. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Medida Cautelar na Suspensão de Tutela Provisória 106/DF. Relator Min. Dias Toffoli. Decisão liminar tomada em 12/01/2019. DJe de 05/02/2019. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/toffoli-mantem-decreto-permite-direitos.pdf. Acesso em: 25 fev. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Posse na presidência do Supremo Tribunal Federal: Ministro Dias Toffoli – Presidente: Ministro Luiz Fux – Vice-Presidente: sessão solene realizada em 13 de outubro de 2018. Brasília: STF, Secretaria de Documentação, 2019.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Reclamação 32.035/PR. Relator Min. Ricardo Lewandowski. Decisão de mérito tomada em 28/09/2018. DJe de 01/10/2018. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/lewandowski-autoriza-lula-dar-entrevista.pdf. Acesso em: 25 fev. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Reclamação 32.035/PR. Relator Min. Ricardo Lewandowski. Decisão de mérito tomada em 01/10/2018. DJe de 01/10/2018. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/lewandowski-entrevista-lula.pdf. Acesso em: 25 fev. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Reclamação 32.989/RJ. Decisão monocrática do Ministro Marco Aurélio (relator). Julgamento em 01/02/2019. DJe de 01/02/2019. Disponível em: http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/rcl32989decisaoMMA.pdf. Acesso em: 1º set. 2020.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Reclamação 32.989/RJ. Decisão monocrática do Ministro Luiz Fux (Vice-Presidente). Julgamento em 16/01/2019. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/fux-suspende-investigacoes-fabricio.pdf. Acesso em: 1º set. 2020.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Reclamação 42.050/DF. Decisão monocrática do Min. Edson Fachin (relator). Julgamento em 03/08/2020. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/fachin-revoga-decisao-lava-jato.pdf. Acesso em: 1º set. 2020.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Reclamação 42.050/DF. Decisão monocrática do Min. Dias Toffoli (Presidente). Julgamento em 08/07/2020. Disponível em: https://www.jota.info/wp-content/uploads/2020/07/rcl-42050-mc.pdf. Acesso em: 11 jan. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Reclamação 42.358/RJ. Decisão monocrática do Min. Alexandre de Moraes (relator). Julgamento em 28/08/2020. Disponível em: http://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=15344240830&ext=.pdf. Acesso em: 1º set. 2020.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Reclamação 42.358/RJ. Decisão monocrática do Min. Dias Toffoli (Presidente). Julgamento em 28/08/2020. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/toffoli-witzel-impeachment.pdf. Acesso em: 2 mar. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Relatório de Atividades 2004-2006. Brasília: STF, 2006. Disponível em: https://sistemas.stf.jus.br/dspace/xmlui/handle/123456789/885. Acesso em: 11 fev. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Suspensão de Liminar 1.178/PR. Relator Min. Luiz Fux. Decisão liminar tomada em 28/09/2018. DJe de 01/10/2018. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/decisao-ministro-luiz-fux-stf-deferindo.pdf. Acesso em: 25 fev. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Suspensão de Liminar 1.178/PR. Relator Min. Dias Toffoli. Decisão liminar tomada em 01/10/2018. DJe de 02/10/2018. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/toffoli-suspende-liminar-autorizava.pdf. Acesso em: 25 fev. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Suspensão de Liminar 1.188/DF. Relator Min. Dias Toffoli. Decisão liminar tomada em 19/12/2018. DJe de 31/01/2019. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/toffoli-suspende-liminar-marco-aurelio.pdf. Acesso em: 25 fev. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Suspensão de Liminar 1.395/SP. Rel. Min. Luiz Fux. Decisão liminar tomada em 10/10/2020. DJe de 04/02/2021 (acórdão). Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/decisao-fux-suspensao-liminar-1395.pdf. Acesso em: 3 mar. 2021.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Suspensão de Liminar 1.395/SP. Medida cautelar do Min. Luiz Fux (Presidente). Julgamento em 10/10/2020. Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/decisao-fux-suspensao-liminar-1395.pdf. Acesso em: 15 fev. 2021.
CARVALHO FILHO, Luís Francisco de. Reforma do Judiciário: não pode haver ilusão (entrevista com Dyrceu Aguiar Dias Cintra Júnior). Estudos Avançados, vol. 18, n. 51, pp. 169-180, 2004. DOI: https://doi.org/10.1590/S0103-40142004000200010. Acesso em: 15 fev. 2021.
DE OLIVEIRA, Fabiana Luci. Quando a Corte se divide: coalizões majoritárias mínimas no Supremo Tribunal Federal. Revista Direito & Práxis, Rio de Janeiro, vol. 8, n. 3, 2017, pp. 1.863-1.908. DOI: 10.1590/2179-8966/2017/23724. Acesso em: 23 fev. 2021.
ESTEVES, Luiz Fernando Gomes. Onze Ilhas ou Uma Ilha e Dez Ilhéus?: a Presidência do STF e sua influência na atuação do tribunal. Revista de Estudos Institucionais, v. 06, n. 01, pp. 129-154, jan./abr. 2020. DOI: https://doi.org/10.21783/rei.v6i1.463. Acesso em: 2 jun. 2020.
FALCÃO, Joaquim; ARGUELHES, Diego Werneck. Onze Supremos: todos contra o Plenário. In: FALCÃO, Joaquim; ARGUELHES, Diego W; RECONDO, Felipe (Orgs.). Onze Supremos: o supremo em 2016. Belo Horizonte, MG: Letramento: Casa do Direito: Supra: Jota: FGV Rio, 2017, pp. 20-28.
FONTAINHA, Fernando de Castro; DOS SANTOS, Carlos Victor Nascimento; CANTISANO, Pedro Jimenez; ARGUELHES, Diego Werneck; PEREIRA, Thomaz Henrique. História oral do Supremo (1988-2013), v.21: Dias Toffoli. Rio de Janeiro: Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas, 2017.
GINSBURG, Tom; HUQ, Aziz Z. How to Save a Constitutional Democracy. Chicago and London: The University of Chicago Press, 2018.
GOMES NETO, José Mário Wanderley; LIMA, Flávia Danielle Santiago. Das 11 Ilhas ao Centro do Arquipélago: os superpoderes do Presidente do STF durante o recesso judicial e férias. Revista Brasileira de Políticas Públicas, vol. 08, n. 02, pp. 741-756, 2018. DOI: 10.5102/rbpp.v8i2.5306. Acesso em: 2 jun. 2020.
HARTMANN, Ivar Alberto Martins; FERREIRA, Lívia da Silva. Ao relator, tudo: o impacto do aumento do poder do Ministro relator no Supremo. Revista Opinião Jurídica, vol. 13, n. 17, pp. 268-283, 2015. DOI: http://dx.doi.org/10.12662/2447-6641oj.v13i17.p268-283.2015. Acesso em: 10 jun. 2020.
MARIANO SILVA, Jeferson. Mapeando o Supremo: as posições dos ministros do STF na jurisdição constitucional (2012-2017). Novos Estudos CEBRAP, vol. 37, n. 01, pp. 35-54, 2018. DOI: https://doi.org/10.25091/s01013300201800010001. Acesso em: 13 jun. 2020.
MENDES, Conrado Hübner. Constitutional Courts and Deliberative Democracy. Oxford: Oxford University Press, 2013.
MEYER, Emilio Peluso Neder. Constitutional Erosion in Brazil. Oxford and Portland: Hart Publishing: 2021.
PEREIRA, Thomaz; ARGUELHES, Diego Werneck; ALMEIDA, Guilherme da Franca Couto. VIII Relatório Supremo em Números: Quem decide no Supremo?: tipos de decisão colegiada no tribunal. Rio de Janeiro: FGV Direito Rio, 2020.
PINHEIRO, Armando Castelar. Texto para Discussão (TD) 966: Judiciário, reforma e economia: a visão dos magistrados. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 2003. Disponível em: http://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/2900. Acesso em: 15 fev. 2021.
REIS, Ulisses Levy Silvério dos. Cabe ao estado censurar as tentações de Cristo?: considerações sobre a (im)possibilidade de exclusão de conteúdos no meio digital a partir do caso Porta dos Fundos e Netflix. Revista Videre, Dourados, vol. 12, n. 24, pp. 214-236, maio/ago. 2020. DOI: https://doi.org/10.30612/videre.v12i24.12542. Acesso em: 22 fev. 2021.
REIS, Ulisses Levy Silvério dos; MEYER, Emilio Peluso Neder. Guerra de liminares no retrocesso democrático e sua contribuição para a instabilidade do estado de direito. In: BUSTAMANTE, Thomas da Rosa; MELLO, Patricia Perrone Campos. Retrocesso Democrático e Resiliência: a disputa pela Constituição de 1988. Barcelona: Bosch, 2021 (no prelo).
RENAULT, Sérgio Rabello Tamm. A reforma do Poder Judiciário sob a ótica do governo federal. Revista do Serviço Público, Brasília, vol. 56, n. 2, pp. 127-136, 2005. Disponível em: https://revista.enap.gov.br/index.php/RSP/article/view/221/226. Acesso em: 11 fev. 2021.
SADEK, Maria Tereza Aina. Poder Judiciário: perspectivas de reforma. Opinião Pública, Campinas, vol. 10, n. 1, pp. 1-62, 2004. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/op/v10n1/20314.pdf. Acesso em: 14 fev. 2021.
SANTIAGO LIMA, Flávia Danielle; ANDRADE, Louise Dantas de; OLIVEIRA, Tassiana Moura de. Emperor or President? Understanding the (almost) unlimited power of the Brazilian Supreme Court’s President. Revista Brasileira de Direito, vol. 13, n. 01, pp. 161-176, 2017. DOI: https://doi.org/10.18256/2238-0604/revistadedireito.v13n1p161-176. Acesso em: 9 jun. 2020.
SILVA, Virgílio Afonso da. Deciding without deliberating. International Journal of Constitutional Law, vol. 11, n. 03, pp. 557-584, 2013. DOI: http://doi.org/10.1093/icon/mot019. Acesso em: 13 jun. 2020.
SILVA, Virgílio Afonso da. Do We Deliberate? If So, How? European Journal of Legal Studies, vol. 09, n. 02, pp. 209-240, 2017. Disponível em: https://cadmus.eui.eu/handle/1814/46072. Acesso em: 13 jun. 2020.
VALE, André Rufino do. Argumentação Constitucional: um estudo sobre a deliberação nos tribunais constitucionais. São Paulo: Almedina, 2019.
VIEIRA, Oscar Vilhena. A Batalha dos Poderes. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
Téléchargements
Publié
Numéro
Rubrique
Licence
“Eu XXXX declaro que em caso de aceitação do artigo inédito, a Revista Brasileira de Políticas Públicas passa a ter os direitos autorais a ele referentes sendo vedada qualquer reprodução total ou parcial, em qualquer outro meio de divulgação impresso ou eletrônico. Em caso de necessidade, autorização prévia deverá ser solicitada por escrito junto ao Editor-gerente da RBPP”.
Revista Brasileira de Políticas Públicas do UniCEUB está licenciada sob uma LICENÇA CREATIVE COMMONS licence Creative Commons Attribution 4.0 International.
http://www.publicacoesacademicas.uniceub.br/