Judicialização do acesso à Cannabis medicinal no Brasil: o paradoxo do proibicionismo no controle de drogas e a efetivação do direito à saúde
DOI:
https://doi.org/10.5102/rbpp.v14i2.8816Palavras-chave:
Cannabis medicinal, direito à saúde, judicialização da saúde, política de drogas, proibicionismo.Resumo
A cannabis sativa é mundialmente reconhecida por suas inúmeras propriedades terapêuticas, as quais já se encontraram amplamente descritas na literatura médica, com destaque para os estudos que apontam seus benefícios no tratamento da epilepsia e mal de Alzheimer. Entretanto, no Brasil, assim como em diversos países, a cannabis pertence ao rol das substâncias cujo plantio, uso, porte, venda está tipificada na Lei de drogas (11.343/2006) e somente nos casos autorizados pela ANVISA e com prescrição médica, os pacientes podem fazer uso de medicamentos à base de canabinoides ou da planta in natura. Por esta razão nos indagamos: de que modo a política de drogas brasileira interfere no acesso à cannabis medicinal pelos pacientes que dela necessitam? A hipótese adotada nesse estudo é de que a política de drogas proibicionista adotada pelo Estado brasileiro interfere à medida que dificulta e gera significativos obstáculos ao acesso à cannabis medicinal no país, diante da marginalização verificada pela criminalização da planta. Assim, através do método dedutivo essa pesquisa concluiu que às restrições impostas pela Lei de drogas e as portarias da ANVISA tem promovido a judicialização de demandas para que os pacientes tenham acesso à cannabis medicinal e possam dar continuidade aos tratamentos médicos. Deste modo, resta claro que compreender de que forma a política proibicionista de drogas obsta o acesso à cannabis medicinal, nos leva a reconhecer as violações ao direito fundamental à saúde e revela a urgente necessidade de promovermos uma política criminal de drogas que tutele eficientemente os direitos dos cidadãos.Referências
ANVISA. Resolução da Diretoria Colegiada n. 17, de 6 de maio de 2015. Brasília, DF, 2015. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2015/rdc0017_06_05_2015.pdf Acesso em: 25 mar. 2022
ANVISA. Resolução da Diretoria Colegiada n. 192, de 11 de dezembro de 2017. Brasília, DF, 2017. Disponível em: https://www.in.gov.br/materia/-/asset_publisher/Kujrw0TZC2Mb/content/id/953135/do1-2017-12-12-resolucao-rdc-n-192-de-11-de-dezembro-de-2017-953131 Acesso em: 25 mar. 2022
ANVISA. Resolução n. 1.525, de 14 de abril de 2021. Brasília, DF, 2021. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-re-n-1.525-de-14-de-abril-de-2021-314288219 Acesso em: 25 mar. 2022
BARBOSA, Michael Gabriel Agustinho et al. O uso do composto de Canabidiol no tratamento da doença de Alzheimer (revisão da literatura). Research Society and Development, v. 9, n. 8, p. 1-18, 2020
BARROSO, Luís Roberto. Da falta de efetividade à judicialização excessiva: direito à saúde, fornecimento gratuito de medicamentos e parâmetros para a atuação judicial. Jurisp. Mineira, Belo Horizonte, a. 60, n° 188, p. 29-60, jan./mar. 2009. Disponível em: https://bd.tjmg.jus.br/jspui/bitstream/tjmg/516/1/D3v1882009.pdf Acesso em: 08 out. 2022
BRASIL. Constituição Federal. Brasília: Assembleia Nacional Constituinte, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm Acesso em: 15 mar. 2022
BRASIL. Lei n. 11.343, de 23 de agosto de 2006. Lei de Drogas. Brasília, DF, 2006. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11343.htm Acesso em: 25 mar. 2022
CAMARGO FILHO, Marcelo Ferrari de Almeida et al. Canabinoides como uma nova opção terapêutica nas doenças de Parkinson e de Alzheimer: uma revisão de literatura. Revista Brasileira de Neurologia, v. 55, n. 2, p. 17-32, 2019
CARNEIRO, Henrique S. Proibição da maconha: racismo e violência no Brasil. Cahiers des Amériques Latines. 2019, n. 92, pp. 135-152. Disponível em: <https://journals.openedition.org/cal/10049#quotation>. Acesso em 02 out. 2022
CARVALHO, Salo de. Antimanual de criminologia. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2022
CFM. Resolução 2.113, de 30 de outubro de 2014. Brasília, DF, 2014. Disponível em: https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2014/2113 Acesso em: 25 mar. 2022
CHEUNG, Keith A. Kwan et al. The Interplay between the Endocannabinoid System, Epilepsy and Cannabinoids. International Journal of Molecular Sciences, v. 20, n. 23, p. 1-21, 2019
CNJ. Judicialização da saúde no Brasil: dados e experiência. Coordenadores: Felipe Dutra Asensi e Roseni Pinheiro. ‑ Brasília: Conselho Nacional de Justiça, 2015. pp 142. Disponível em: <https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2011/02/6781486daef02bc6ec8c1e491a565006.pdf>. Acesso em 07 out. 2022
FIORE, Maurício. O lugar do Estado na questão das drogas: o paradigma proibicionista e as alternativas. Novos estudos CEBRAP [online]. 2012, n. 92, pp. 9-21. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-33002012000100002>. Acesso em 02 out. 2022
GERBER, Konstantin. Entre a espiritualidade e a regulação: usos medicinais, ritualístico-religiosos, tradicionais da cannabis e a Constituição Brasileira de 1988. 309 f. Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), São Paulo, 2019
GLOBO. Anvisa autoriza comercialização de fármaco à base de canabidiol. G1, Globo.com, 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/04/22/anvisa-autoriza-comercializacao-de-de-farmaco-a-base-de-canabidiol.ghtml Acesso em: 25 mar. 2022
KARAM, Maria Lúcia. A Lei nº 11.343/06 e os repetidos danos do proibicionismo. In: LABATE, Beatriz Caiuby et al (org.). Drogas e cultura: novas perspectivas. Salvador: EDUFBA, 2008. p. 105-122
LABATE, Beatriz; RODRIGUES, Thiago. Proibição e guerra às drogas nas Américas: Um enfoque analítico. In: LABATE, Beatriz; RODRIGUES, Thiago (Orgs.). Políticas de drogas no Brasil: Conflitos e alternativas, Campinas: Mercado de Letras, 2018
MACEDO, Wendel Alves Sales. Direito humano à saúde e uso terapêutico da cannabis: um estudo de caso da Liga Canábica Paraibana. 173 f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos, Cidadania e Políticas Públicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPE), João Pessoa, 2018
MACHADO, Felipe Rangel de Souza; DAIN, Sulamis. A Audiência Pública da Saúde: questões para a judicialização e para a gestão de saúde no Brasil. Revista de Administração Pública [online]. 2012, v. 46, n. 4, pp. 1017-1036. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0034-76122012000400006> Acesso em 07 out. 2022
MACHADO, Marina Amaral de Ávila et al. Judicialização do acesso a medicamentos no Estado de Minas Gerais, Brasil. Revista de Saúde Pública, v. 45, n. 3, p. 590-598, 2011. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/rsp/a/JMs8FWbvHyC4rshchtsD5YF/?format=pdf&lang=pt>. Acesso em 08 out. 2022
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Portaria n. 344, de 12 de maio de 1998. Brasília, DF, 1998. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/svs/1998/prt0344_12_05_1998_rep.html Acesso em: 25 mar. 2022
NOCETTI, Carolina Teixeira; RIBEIRO, Lair Geraldo Theodoro. Uso de canabinoides como adjuvante no tratamento da doença de Alzheimer. Brazilian Journal of Surgery and Clinical Research, v. 32, n. 3, p. 104-111, 2020
OLIVEIRA, Fabiana Santos Rodrigues de. Maconheirinhos: cuidado, solidariedade e ativismo de pacientes e seus familiares em torno do óleo de maconha rico em canabidiol (CBD). 193 f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Brasília (UNB), Brasília, 2016
RIBEIRO, Lair Geraldo Theodoro; NOCETTI, Carolina; BAPTISTA, Ana Gabriela. Uso de canabinoides como adjuvante no tratamento da dor crônica. Brazilian Journal of Surgery and Clinical Research, v. 28, n. 3, p. 46-53, 2019
SAAD, Luísa. “Fumo de Negro”: a criminalização da maconha no pós-abolição. Bahia: CETAD/EDUFBA. 2019
SILVA, Penildon. Farmacologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010
SILVEIRA FILHO, Dartiu Xavier da; NIKOBIN, Rodrigo. O uso terapêutico dos canabinoides: novas perspectivas e informações clínicas. In: SADDI, Luciana (org.). Maconha: os diversos aspectos, da história ao uso. São Paulo: Editora Blucher, 2021
SMITH, Saulo de Paiva. Cannabis, judicialização e aspectos legais do uso medicinal. 113 f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis, 2019
STJ. Recurso Especial: REsp 1.657.075. Relator: Francisco Falcão. Data de Julgamento: 14/08/2018
STJ. Recurso Ordinário em Habeas Corpus: RHC 123.402. Relator: Reynaldo Soares da Fonseca. Data de Julgamento: 23/03/2021
STJ. Recurso Ordinário em Habeas Corpus: RHC 147.169. Relator: Sebastião Reis Júnior. Data de Julgamento: 20/06/2022.
TJDFT. Apelação Cível: AC 07030637320178070018, Relator: Roberto Freitas. Data de Julgamento: 10/04/2019
TJSP. Apelação Cível: AC 10063410320208260009, Relator: Spoladore Dominguez. Data de Julgamento: 29/03/2021
VALOIS, Luís Carlos. O direito penal da guerra às drogas. 3. ed. Belo Horizonte: Editora D’Plácido, 2020
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
“Eu XXXX declaro que em caso de aceitação do artigo inédito, a Revista Brasileira de Políticas Públicas passa a ter os direitos autorais a ele referentes sendo vedada qualquer reprodução total ou parcial, em qualquer outro meio de divulgação impresso ou eletrônico. Em caso de necessidade, autorização prévia deverá ser solicitada por escrito junto ao Editor-gerente da RBPP”.
Revista Brasileira de Políticas Públicas do UniCEUB está licenciada sob uma LICENÇA CREATIVE COMMONS licence Creative Commons Attribution 4.0 International.
http://www.publicacoesacademicas.uniceub.br/